Ela encontrou nele o seu melhor amigo. Todos os dias, a menina pegava o metrô e ia escondido na estação Tamanduateí tocar piano. Quando lá chegava, o lugar estava vazio e ele a chamava. Sua madeira polida, as teclas de marfim sempre prontas a receber seus dedos, os pedais posicionados perfeitamente para seus pés e aquele som. Uma única palavra: perfeito!
Ela sentava, fechava os olhos e deixava que a melodia a guiasse para longe. Num mundo onde ninguém a entendia, onde ela não podia ser apenas si própria, onde mais vale um corpo bonito que um cérebro inteligente, onde tinha de lutar para ter espaço, ser alguém, lá estava ele. Um piano tão sincero que não exigia nada dela, não perguntava nem julgava, só queria que alguém o tocasse retribuindo, assim, com uma amizade verdadeira. Todos os dias, a menina pegava o metrô e ia escondido na estação Tamanduateí tocar piano. E lá era mais feliz que nunca.
Pessoas vinham para ver. Alguns se emocionavam, outros se extasiavam, outros relembravam e ninguém saía sem sentir algo especial. Palmas no final da música, pedidos de mais. Ali ela era reconhecida. Todos os dias, a menina pegava o metrô e ia escondido na estação Tamanduateí tocar piano. Aquele era seu mundo particular, um sonho que vivia. Ali, os problemas sumiam, as preocupações iam dar uma volta e só sobrava alegria. Era como uma segunda vida. Como se renascesse a cada nota Lá para ser grande e não só mais uma mancha cinza na multidão. Ali ela brilhava e mostrava seu talento. Um talento tão natural quanto respirar. Era um segredo seu aquelas poucas horas em que brilhava e não abriria mão por nada.
Sim, todos os dias, a menina pegava o metrô e ia escondido na estação Tamanduateí tocar piano. Mas sempre chegava a hora de voltar para o mundo real. Ela descia a tampa de seu amigo, pegava sua bolsa e ia embora. Mas sempre antes de subir a escada, olhava para trás e pensava: "Até amanhã, meu amigo. Pode ter certeza de que eu volto...".
















